A cena do crime era basicamente um quarto bastante bagunçado, gavetas reviradas, sinais de luta por toda a parte, um ambiente bem escuro, muito escuro. Era culpa das cortinas. Pesadas cortinas de veludo, tinham uma cor estranha, parece que variavam subitamente de um verde abafado para um vermelho meio envelhecido. Comentei o detalhe:
_Que cor estranha a dessas cortinas. Parece que são dois panos costurados um por cima do outro.
_Isso é o sangue do Teophilus. – nesse momento deu para sentir uma certa indignação misturada com despeito da parte dele. Acho que essa família não vai muito com a minha cara.
Realmente, era sangue, tinha sangue pela cortina inteira, mas de onde teria vindo, ond- Ah! Tinha um corpo na cena do crime! O corpo do próprio Teophilus! Um corpo coberto de sangue…
_Ah, olha, achamos o corpo! – o olhar que eu recebi de Jack acabou com o meu ânimo, aparentemente eles já tinham identificado o corpo, aparentemente, eu era o único que não tinha visto o corpo logo de entrada. Que culpa tenho eu? Sou meio autista, não reparo nas pessoas, o ambiente sempre me chama mais a atenção.
Me abaixei e comecei a inspecionar o morto, estava vestindo um pijama completamente ensanguentado. Não havia nada nos bolsos, ainda estava com o seu relógio. Continuei a inspeção por mais uma hora quando fui convidado para almoçar. Não gosto de almoços, mas era uma boa situação para conhecer os Van Henegar.
Estávamos agora na sala de jantar, nos sentamos à mesa e a refeição foi servida. Fico muito feliz de finalmente ter descoberto o que é um faisão com caviar, tem gosto de cachorro quente, mas sem ketchup, além de ser muito melhor, evidentemente. Na verdade, nos últimos tempos eu só tenho comido cachorro quente sem ketchup, acho que se eu provasse a toalha ela teria gosto de cachorro quente sem ketchup.
Gosto das banalidades. Elas aliviam a cabeça das grandes questões da vida e do trabalho. Mas, ou um ou outro, acabam sempre voltando à superfície dos pensamentos.
_Diga-nos senhor Nightingale, quais são suas impressões sobre o caso. – uma frase inocente que adquiriu proporções bíblicas na voz do sr. Jack. Engasguei com o faisão.
_Querido, não é um assunto para ser discutido à mesa do almoço! – a doce voz da senhora Van Henegar. E ela estava do meu lado! Meu meio sorriso do canto esquerdo voltou a aparecer e se dirigiu a ela. Mas eu continuava engasgado.
_O detetive que você contratou me parece incompetente de mais para esse caso, na cena do crime ele levou meia hora para encontrar o corpo e ainda criticou as cortinas! – em geral eu sou bem compassivo nessas situações, mas eu já estava ficando vermelho e asfixiando, fui tentar pedir ajuda aos gêmeos. Um deles estava com os olhos fixos na discussão dos pais, o outro olhou de volta com o típico olhar dos Van Henegar, aquele que diz: “Morra Nightingale!”. Acho que foi ele que escolheu as cortinas.
_Não me importa se você acha que ele é competente ou não. Ele resolveu os maiores casos de Nova Iorque! – eu fui retrucar, dizer que tinha sido apenas sorte, mas algo me fez ficar calado. Não sei se era o faisão ou o caviar, ou ambos. Talvez o bom senso.
Enquanto o casal trocava farpas eu fui rapidamente socorrido pela copeira que tinha acabado de voltar para sala. Pensei em soltar um gracejo para agradecer a ajuda providencial. Mas a senhora Van Henegar me distraiu. “Sr. Nightingale, por favor, é melhor que se retire, meu marido pode ter um colapso nervoso a qualquer momento e eu não quero que isso aconteça”.
Pode parecer meio grosseiro daí, mas ela disse isso com o afável tom de quem acaricia cachorros em um lindo dia ensolarado. Apesar de que o rosto dela era mais o de alguém que queria me matar lenta e dolorosamente de uma forma cruel e sanguinária que escapa aos mais horripilantes devaneios da minha imaginação. Interiormente eu queria cair dentro de um buraco e sumir daquela casa. Exteriormente o máximo que eu consegui foi um meio sorriso do canto esquerdo, que foi muito mal recebido pelo marido.
Mas eu sou duro, não me importo com o que os outros acham, só me importa o pagamento.
Na saída encontrei a copeira, agradeci devidamente a ajuda. Era jovem e bonita. E tinha um meio sorriso no canto esquerdo também! Perguntei se ela sabia se o casal Henegar discutia assim o tempo todo.
_Só em público.
Minha vez de sorrir. Perspicaz a menina. Saí da mansão. Quinze minutos depois saí do jardim. Fora uma visita produtiva, agora eu sabia quem ali dentro me queria vivo e quem me queria morto. Agora era hora de analisar o que eu tinha e descobrir mais informações. Fui contatar meus informantes.